Domingo, Agosto 13, 2006

FIM

Faltava-me esta palavra.


Domingo, Agosto 06, 2006

(A)MAR

Não sei bem porque é que o (a)mar surgiu. Quando comecei, pensava que sabia. Durante estes meses, embora que em constante reformulação do sentido, pensava que sabia. Hoje não sei nada. Esta é aquela fase em que, dizem os sábios, despojados de tudo, estamos finalmente aptos a começar a conhecer. Não sei se é assim. Sempre tive medo de me perder. Esta sensação de desamparo, de total vazio, em nada me estimula - e só me paralisa. Perdi-me, apesar de tudo. Isso sei.
Suponho que já não tenho vontade de continuar o a-mar, que já não me faz sentido continuar o (a)mar.
Fazem-se afectos na blogosfera. Há pessoas que conhecemos, ou melhor, reconhecemos, porque têm algo que nós também temos, e de que passamos a gostar. Falo agora delas e, se possível, também para elas.
O meu obrigada a todas, não por me terem lido, mas por me terem permitido lê-las, no que isso tem, apesar de tudo, de subjectivo, e que é ler-me também. O meu mundo ficou maior!
Obrigada ao Jorge, porque tudo o que constrói me parece sempre sério e belo.
Obrigada ao mfc, que há muito que deixou de me visitar, ele que sempre me visitava no impossibilidades, mas cuja ausência me fez repensar a importância de não desistirmos, mesmo quando estamos sós e, sobretudo, a importância de cuidarmos melhor dos nossos afectos.
Obrigada ao jrd, também ausente.
Obrigada ao Pedro Ferreira, por ser sempre igual a ele próprio.
Obrigada à Elsa, amiga da vida, dita real, que me mostra sempre o outro lado da Lua ou do Sol e que me faz relembrar os momentos mais bonitos da minha infância.
Obrigada ao Alba, pela sua consistência, coragem e perseverança.
Obrigada à Maria do Rosário, cujas visitas silenciosas me fizeram acreditar que haveria algo em mim de imutável, ela que me leu no impossibilidades e que pareceu reconhecer-me também aqui, ela que, como eu, adora ser mãe.
Obrigada ao Pedro Estácio e ao Lino, do Porto, que me mostraram, de outra forma, o calor daquela cidade.
Obrigada ao Pedro Farinha e a toda a equipa do Farol das Artes, pela paz interior e harmonia que sempre me inspiraram e inspiram.
Obrigada ao jmnk, que acabo de conhecer mas que já me faz pensar.
Obrigada a todos os que não referi, mas que constam da minha lista de favoritos, e que também ajudaram a tornar maior o meu mundo.
Finalmente, obrigada ao jctp, pessoa que mais mexeu comigo durante estes escassos seis meses e que deitou por terra muitas das minhas certezas. Obrigada por me fazeres crescer!
Até breve, espero.

Sábado, Agosto 05, 2006

Não há felicidade solitária

É a fraqueza do homem que o torna sociável; são as nossas mi­sérias comuns que levam os nossos corações a interessar-se pela humanidade: não lhe deveríamos nada, se não fôssemos homens. Todos os afectos são indícios de insuficiência: se cada um de nós não tivesse necessidade dos outros, nunca pensaria em unir-se a eles. Assim, da nossa própria enfermidade, nasce a nossa frágil fe­licidade. Um ser verdadeiramente feliz é um ser solitário; só Deus goza de uma felicidade absoluta; mas qual de nós faz uma ideia do que isso seja? Se algum ser imperfeito se pudesse bastar a si mes­mo, de que desfrutaria ele, na nossa opinião? Estaria só, seria mi­serável. Não posso acreditar que aquele que não precisa de nada possa amar alguma coisa: não acredito que aquele que não ama na­da se possa sentir feliz.

Jean-Jacques Rousseau, in 'Emílio'

in Citador

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

Ojala



Ojala que las hojas no te toquen el cuerpo cuando caigan
para que no las puedas convertir en cristal
ojala que la lluvia deje de ser milagro que baja por tu cuerpo
ojala que la luna pueda salir sin ti
ojala que la tierra no te bese los pasos

ojala se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojala pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora, un disparo de nieve
ojala por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos y en todas las visiones
ojala que no pueda tocarte ni en canciones

ojala que la aurora no de gritos que caigan en mi espalda
ojala qu tu nombre se le olvide a esta voz
ojala las paredes no retengan tu ruido de camino canzado
ojala que el deseo se vaya tras de ti
a tu viejo gobierno de difuntos y flores.


ojala se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojala pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora, un disparo de nieve
ojala por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos y en todas las visiones
ojala que no pueda tocarte ni en canciones

ojala pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora, un disparo de nieve
ojala por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos y en todas las visiones
ojala que no pueda tocarte ni en canciones


Silvio Rodriguez

Terça-feira, Agosto 01, 2006

Acto Isolado

Queria ser estúpida para não perceber a minha estupidez.

e-a-fada-madrinha-transformou-a-cinderela-em-peixe

Olha lá, costumas mentir?

Eu não. E tu?

Eu também não.

...

Olha lá, costumas mentir?

Eu?

Sim, tu!

Às vezes.

Às vezes? E mentes a quem?

A mim própria.

...

Não leves a mal a pergunta, mas não achas que...

Sim?

Bom, essa coisa de só gostares de situações difíceis... não achas que és esquisita?

Esquisita, esquisita como?

Epá, esquisita, sei lá! Doente!

Doente? Sim, suponho que sou doente.

E?

E nada. Sou doente.

Vá lá, agora a sério.

Isto é a sério.

...

Achas que és feliz?

Eu não, e tu?

Eu cá acho.

Que eu sou feliz?

Não, que eu sou feliz.

Ah...

...

Pensas muito?

Penso.

Porquê?

Não sei.

Pensas muito e não sabes porquê?

Sim, isso mesmo.

...

Que merda de diálogo é este?

É um diálogo.

Epá, às vezes irritas-me, és mesmo chanfrada!

Porquê?

Porque fazes coisas sem o mínimo nexo.

Tais como?

Tais como estares agora aqui a fingir que és duas.

E?

E achas que isto faz algum sentido?

Preocupa-te o sentido?

Preocupa.

Qual sentido?

Tás a ver? És mesmo, és mesmo...

Vamos dormir?

É melhor...

Segunda-feira, Julho 31, 2006

Recordações # 4




















Silence (1799-1801)
FUSELI, John Henry
( 1741, Zürich;1825, London)

Palavra-Silêncio: Corpo

A limitação do ser, pela condição do corpo, remete-nos para o absoluto silêncio de nós próprios.

[publicado no im(possibilidades) em 28.09.2005]


Domingo, Julho 30, 2006

...

Quarta-feira, Julho 26, 2006

Fim

Olha, sabes, estou cansada.
Do sentido e do não sentido.
De pensar. De não querer pensar.
Das palavras. Do silêncio. Do silêncio por dentro das palavras.
De acordar. De respirar.
Dos caminhos. Das dúvidas. Das certezas. Dos jogos. Dos Espelhos.
Da tristeza.
Alcançar.
Ahhhh! Estou cansada.
Dormir, queria dormir. Não acordar.
Respiro, ainda respiro, e uma fé louca faz-me continuar a acreditar.
Amanhã. Sempre amanhã.
Sou até capaz de sorrir.
Imbecil.
Não sou nada. Não somos nada.
Pintaram-nos um dia, por brincadeira, mas nunca terminaram a tela.
E aqui estamos, eternamente presos aquilo que não faz sentido, que nunca fez.
Diz que me amas. Diz que me matas.
Rompe todas as barreiras e converte o sorriso em lágrima, a lágrima em lamento, o lamento em nada.
Vazio, transforma o vazio em eternidade e a eternidade num momento.
Não hesites, mata-me agora, pois só a amor nos pode salvar.

Terça-feira, Julho 25, 2006

...

you are welcome to elsinore


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny (1957)

Segunda-feira, Julho 24, 2006

Náusea

nem sempre se deve dizer o que se pensa. o melhor é até não acreditar em causa alguma. ser idealista. os tempos não estão para isso. não nos pagam para pensar. engole lá o carapau e põe-te a andar se queres comer amanhã. ora, ora, deves estar enganada, pois que até houve uma revolução. ovulação? não, revolução.
a coisa é assim: amanhã chegas e finges que não aconteceu nada. se conseguires, dás até a entender que estavas enganada. pagas um café à gaja, dizes que sofres de enxaquecas e pode ser que a coisa passe. se não pegar, ofereces-te para fazer uns trabalhinhos extra. de graça, é claro. lembra-te disto: temos que ser mais espertas que o sistema, percebes?
vomito. ai, se vomito. foi a porcaria do carapau frito. só pode. que mais me podia ter causado esta agonia? pergunta: os carapaus fritos também podem provocar dores na alma?
amanhã chego lá e arraso com aquela cabra de merda! que se foda o emprego, que se fodam as consequências. o outro, que até é um gajo fixe, diz que sou ingénua, que quando tiver mais vinte anos já não penso assim. pois, pois, daqui a uns anitos explico à minha filha por quanto foi que a sua mãe se vendeu. sabes filha, vendi-me por um carapau. há-de ficar orgulhosa! mãe à maneira, não se deixou endrominar. boa!
bom, que se lixe. vou mas é ao Colombo descansar as vistas. pensando bem, para quê chatear-me se uns quantos pretos vão ou não ter futuro. cabrões! que vão para a terra deles!

Domingo, Julho 23, 2006

o princípio e o fim

Convidada fui para me juntar a um grupo de pessoas que tem a mania, imaginem, de divulgar livros.
Convidada fui, honrada me senti, e por isso aceitei. Obrigada!
A quem interessar, aqui fica o link para o princípio e o fim, nome do blog que dá corpo a este projecto.
Mesmo a propósito, divulga jctp, nesse mesmo espaço, o livro Amusing Ourselves to Death, de Neil Postman, que contrapõe as obras de George Orwell e de Aldous Huxley, onde podemos ler:
(...) What Orwell feared were those who would ban books. What Huxley feared was that there would be no reason to ban a book, for there would be no one who wanted to read one. (...)
Mesmo a propósito, não acham?

Sábado, Julho 22, 2006

...


Chagall

Quinta-feira, Julho 20, 2006

No dia em que morreste

No dia em que morreste, os pássaros levaram o teu corpo.

Deixei-o, assim, em repouso, por entre as flores do nosso quintal e esperei sentada, na cadeira branca, pela chegada dos pássaros.

Que o meu gesto não te engane, meu amor, pois que não era livre que eu te queria, mas tão só meu.

Todos os dias de manhã passei a ir pôr-me à janela. Esperava.

Via-te então no céu, só meu, tão só.

Quarta-feira, Julho 19, 2006

Carioca

O novo trabalho de Chico Buarque.

Vou ouvir até deixar de amar, ou seja, até morrer!

Terça-feira, Julho 11, 2006

Chove!

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

Segunda-feira, Julho 10, 2006

...

Paula Rego

Sexta-feira, Julho 07, 2006

coisas comezinhas

mudo outra vez de casa, mas não para a minha - porque as obras ainda não terminaram.

estou farta de ter parte da minha vida arrumada em caixotes.

ainda por cima, continuo doente e pouco posso fazer. necessito de ajuda, coisa que não encaro lá muito bem, vá-se lá saber porquê...

a M. reclama os seus brinquedos e o seu quarto e tem tido dificuldade em dormir.

eu nada faço e nada quero fazer - e ando super, mas super neura.

ai, ai, ai, já estão a chorar? eu também não, é pena - acho que me fazia bem.

posto isto, o que é que acham: devo ou não casar-me?

alucino, alucino, claramente, quer dizer, vejo luzes.

Terça-feira, Julho 04, 2006

...

Chagall

De Amar # 10

navegamos como se nada nos prendesse à vida, nem mesmo o desejo do teu corpo ou do meu.
pés e mãos são apenas metáforas desta loucura que somos nós.
um dia sou praia e tu és onda, num outro sou peixe e tu és mar.
mil cheiros houvera, mil cores, mil histórias de dormir ou de encantar, mil sons houvera, mil sabores, mil poemas por escrever ou inventar.
navegas-me, como só tu me navegas.
navegas-me, como se só soubesses navegar.
resgato o sol dos teus olhos, invento um tempo ou um lugar.
navego-te, como só eu te navego.
não há promessas, só há luar.
navegamos como se nada nos prendesse à vida, nem este amor, nem este amar.

Segunda-feira, Julho 03, 2006

Incineradora

Disse 'Amor'?

Disse.

E quanto custa?

Desculpe?

Perguntei quanto custa!

Pelo que me é dado a observar, a sua alma.

Ah?

A sua alma.

tenho uma couve-lombarda na cabeceira ou o sentido de existir # 2

Vou ali e já volto.

Vais ali?

Sim, vou ali.

Ali é onde?

À casa-de-banho.

Ah... Estás aflita?

Estou. Preciso urgentemente de lavar a alma.

A alma? Na casa-de-banho?

Porquê, nunca a lavas?

Sexta-feira, Junho 30, 2006

Infinito # 3


A M. terminou hoje o 1º ano.

Amanhã há festa na escola.

A M. vai fazer o seu primeiro teatrinho e está muito nervosa.

Miau, miau, mãe, achas que imito bem um gato?

O nome da peça é The Animals' Farm.

Esta noite ensaiámos as pinturas.

Bom, fiz o melhor que pude.

A M. é linda e faz-me muito feliz.

tenho uma couve-lombarda na cabeceira ou o sentido de existir

Imagina um tipo que leva um soco todas as manhãs quando se levanta.
Ah?
Sim, imagina um tipo que leva um soco todas as manhãs quando se levanta, há mais de 20 anos.
Epá, isso não faz sentido. Mas porque é que um tipo leva um soco há mais de 20 anos?
Estás a fazer as perguntas erradas. Não interessa porque é que ele leva um soco - pode haver mil razões para isso, e todas elas desconhecidas, até do próprio tipo.
Olha, não estou a perceber nada...
Bom, porque é que não perguntas antes o que é que o tipo faz quando acorda: Gosta de acordar? Gosta de levar um soco? Tem medo? Tenta defender-se?
Tás mas é a ficar maluca!
Não estás a perceber...
Tá visto que não!
A questão é que o tipo já mudou de quarto, já mudou de casa, já mudou de cama, mas continua a levar um soco sempre que acorda. Não há nada a fazer, não depende dele.
Estiveste a fumar?
Agora quem está parva és tu. Atina lá e tenta perceber.
Perceber, perceber o quê?
Por exemplo, a situação mudou. Há já dois meses que sempre que o tipo acorda não acontece nada.
Olha, ainda bem para ele!
Tá visto que hoje não atinas! Não percebes que o homem está a sofrer?
A sofrer? Mas se já não leva um soco, agora é que ele já não está a sofrer.
Então e o hábito? Ou achas que é fácil para uma pessoa deixar um hábito de 20 anos? O homem está completamente perdido. Sente-se infeliz.
Infeliz?
Sim, infeliz. Infeliz por estar feliz e por não saber como é que se vive feliz. É por isso que se sente infeliz.
Olha...
Ah?
Não leves a mal, mas não achas que era melhor ires dormir?

Quarta-feira, Junho 28, 2006

comunicar: a arte de não desistir

Estou cansada. Há demasiados mal-entendidos entre as pessoas. Por mais estratégias que se usem, comunicar é mesmo difícil!

Merda para isto tudo! Merda para a blogosfera!

O mar, acho que vou ver o mar - pode ser que tenha algum conselho sábio para me dar.

E se não tiver, paciência. Torno-me cínica.

Não fará grande diferença. Há já tantos por aí.

Pronto, hoje estou zangada.

Carta # 6

jctp,
Quis escrever-te, ou melhor, escrevi-te mas apaguei a primeira carta e a segunda volatizou-se quando carreguei no "publish post".
Lamento.
Acho que não a consigo recuperar.
Poderia escrever-te outra, porque a tenho de memória, mas as palavras já não me fazem sentido.
O tempo, mesmo o tempo curto, tem destas coisas.
Comunicar, gosto de pensar que conseguimos comunicar, que gostamos de comunicar, mas agora já não tenho a certeza.
Estrela do Mar

Terça-feira, Junho 27, 2006

Como é que preferes?

jctp, por favor, volta!

jctp, volta imediatamente!

jctp, sem ti a minha Alice não consegue viver.

jctp, sem ti a minha Alice não consegue morrer.

jctp, olha que te magoas!

jctp, olha que me magoas!

jctp, eu cá leio-te.

jctp, vou escrever-te uma carta mais logo.

jctp, espero que me leias.

(a ordem dos factores é arbitrária, pois todas as frases querem dizer o mesmo).

Segunda-feira, Junho 26, 2006

What if...

Sábado, Junho 24, 2006

Infidelidades

As tuas pernas já foram árvores mas agora são só troncos, mortos, por sinal.

As tuas mãos já foram brisa mas agora são só gente, fria, por sinal.

E o teu corpo, antes arco, flecha, mineral, é já só um estorvo, espécie de muro escarpado onde ninguém se quer agarrar.

E todas as florestas encantadas, antes lugares secretos, são agora tão só a razão e o sentido do meu escárnio.

Amo-te e por isso mato-te.

(não há pior doença do que não nos permitirmos sermos felizes)

Quinta-feira, Junho 22, 2006

Verde de Amar



1ª Mostra de Modos de Vida Alternativos

  • Alimentação Natural
  • Ecologia
  • Medicinas Alternativas
  • Terapias
  • Outras Propostas

Cordoaria Nacional - 23 a 25 de JUNHO de 2006
Mais informações em http://terraalternativa.com/.
Vou até lá, acho mesmo que vale a pena.

Quarta-feira, Junho 21, 2006

Cartas # 5

Caro amigo anónimo,
Tenho-me questionado frequentamente sobre o sentido desta nossa forma de comunicar, se é que aquilo que fazemos se pode chamar comunicar.
Que sei eu, ou tu, sobre o verdadeiro sentido daquilo que tentamos transmitir?
Amiúde julgo encontrar similitudes entre as nossas formas de sentir e de pensar.
Engano meu, pois que é ao rever-me em mim que te encontro a ti e não o contrário.
Este é, pois, um jogo falacioso que, eventualmente, não nos leva a lado nenhum.
É certo que nem tudo tem que ter uma finalidade, mas porque chamamos, ou chamo eu, desculpa, caminho a um percurso absolutamente caótico que não tem nem princípio, nem meio, nem sequer um fim?
Esta pergunta é para mim, não para ti.
Como vês, reina aqui a unilateralidade, ou seja, não há comunicação.
Conceitos como emissor-receptor, referente e até mesmo feedback não se aplicam aqui.
Estamos sós, condenados a falar sempre e tão só connosco próprios - tudo o resto é uma mera ilusão.
E é por isso, ou também por isso, que te perdoo sempre que nos roubas mais uma memória. Na realidade, não roubas nada. A memória já era tua.
Oxalá fosse diferente, mas não é.
Há apenas momentos, fugazes momentos, insanidades minhas, em que ainda acredito num nós.
Perdoa-me ser tão ridícula, tão sonhadoramente ridícula.
Ponto final.
A tua estrela, estrela do mar.

Terça-feira, Junho 20, 2006

De Amar # 9

É estranho este amor, pois que até mesmo no silêncio não consigo respirar sem ti.

Segunda-feira, Junho 19, 2006

De Amar # 8

É verdadeiramente fantástica, para não dizer única, a forma como se escreve e se canta o amor no Brasil.

Nunca me farto, nunca deixo de me (en)cantar - mesmo passados tantos anos.

Atrás da Porta

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me entregar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Só pra provar que inda sou tua.





Chico Buarque, 1972

Sábado, Junho 17, 2006

The sky is crying

MARIANA FERNÁNDEZ BARRIOS

Terça-feira, Junho 13, 2006

Ser # 1

E é então que sorriu e falo só para fingir que não estou só.

Quinta-feira, Junho 08, 2006

De Amar # 7

Gosto muito da obra de Silvio Rodriguez. Ponto.

Gosto de tudo, ou quase tudo. Ponto.

Fascina-me esta sua canção, desde menina, pela beleza extrordinária da letra.

Não a consegui encontrar na net. Mas as palavras, neste caso, chegam.


Era extraño aquel hombre,
o por tal lo tomaron,
porque besaba todo
lo que hallaba a su paso.
Besaba a las personas,
al perro, al mobiliario
y mordía dulcemente
la ventana de un cuarto.

Cuando salía a la calle
le iba besando al barrio
las esquinas, aceras,
portales y mercados,
y en las noches de cine
(también las de teatro)
besaba su butaca
y las de sus costados.

Por estas y otras muchas
los cuerdos lo llevaron
donde nadie lo viera,
donde no recordarlo,
y cuentan que en su celda
besaba sus zapatos,
su catre, sus barrotes,
sus paredes de barro.

Un día sin aviso,
murió aquel hombre extraño
y muy naturalmente
en tierra lo sembraron.
En ese mismo instante,
desde el cielo, los pájaros
descubrieron que al mundo
le habían nacido labios.

Era extraño aquel hombre,
o por tal lo tomaron,
porque besaba todo
lo que hallaba a su paso.

Do álbum "Silvio en Chile"

Segunda-feira, Junho 05, 2006

Der Himmel Uber Berlin, Wim Wenders








Sábado, Junho 03, 2006

De Amar # 6

Chegavas agora, como quem chega de uma longa viagem, e trazias um brilho especial nos teus olhos castanhos.
Fazias-me uma supresa, inventada no minuto, para revivermos de novo o nosso amor.
Eramos felizes, e líamos em voz alta todas as cartas que um dia nos escreveramos, espécie de desejo de um tempo que já não é.
Eu cozinhava e punha a mesa e, estranhamente, nesse dia, não achava essa tarefa rotineira.
A casa cheirava a rosas e no rádio todas as músicas pareciam bestiais.
Bebíamos vinho tinto e sorríamos, como se, por momentos, tempo e mundo tivessem parado.
Podíamos ser um, podíamos ser nós, e um estranho desejo, com sabor a doce, pairava no ar.

Quinta-feira, Junho 01, 2006

Memórias

Andaluzia
João Silva
Conheço bem a Andaluzia que, aliás, amo profundamente.
Durante alguns anos, há já também alguns anos, creio que dezasseis ou dezassete, participei num projecto cujo objectivo era promover o intercâmbio entre jovens pintores, músicos, escritores, desportistas e dirigentes associativos das cidades de Amadora e Cordoba.
Projecto efémero e pouco consistente, como é costume cá por estas bandas, mas que acabou por deixar marcas bem profundas em muitos dos que nele participaram, e também em mim, quer pela minha quase total entrega, quer pela minha tremenda juventude.
Conheci durante esses poucos anos pessoas maravilhosas, profissionais de animação cultural, desportiva e sócio-educativa com os quais aprendi muitíssimo e, sobretudo, conheci uma forma muito peculiar de se ser e de se estar no mundo, ou pelo menos, uma forma de se viver bem diferente da nossa - e apaixonei-me. Pelas pessoas, pela cidade, pela fortíssima consciência cívica, pelos cheiros, pelas cores, e até pelo calor de Agosto - que ronda os 42º!
Durante algum tempo, confesso, cheguei mesmo a alimentar o sonho de viver em Cordoba, não fora, entre outros motivos, esta cidade não ter mar e eu não poder viver sem este.
Não obstante, passei, durante alguns anos, parte das minhas férias nesta cidade, uma vez que alguns dos meus companheiros de trabalho acabaram por se tornar também meus amigos pessoais.
Numa das suas vindas a Lisboa, que passaram também a ser hábito, recordo a frase de uma amiga, que espelha bem algumas das diferenças que nos distinguiam. Dizia-me então, estávamos nós em pleno Verão, a tristeza e o espanto que lhe causava ver as ruas desertas tão cedo da noite e rematava, à laia de conclusão, que nos achava um povo triste, pelo que nunca se imaginaria a viver em Portugal.
Sei hoje, como o sabia então, ainda que de forma diferente, que o que nos separava era a forma como vivíamos a nossa cidade, ou melhor, a forma como eles viviam a sua cidade e também a sua vida e a forma como nós não viviamos a nossa.
Este texto não pretende ser coerente, nem tão pouco analisar razões históricas, culturais ou até geográficas que permitam explicar estas nossas diferenças. São apenas memórias que, não sei bem porquê, me saltaram ao caminho. Descrevo apenas e tão só parte do que vivi e, sobretudo, senti.
Recordo com particular saudade um amigo, de nome Pedro, Perico para os amigos, que visitei numa das minhas passagens por Sevilha, onde este vivia e trabalhava, e com quem me correspondi por carta durante algum tempo.
Perico era então médico numa comunidade de toxicodependentes e vivia no centro de Sevilha, com a sua mulher e dois filhos, num apartamento alugado. Estranhou, pois, quando lhe expliquei que eu, com apenas 22 ou 23 anos, tinha comprado um apartamento nos subúrbios de Lisboa e que pagava uma renda três vezes superior à que ele pagava. Eu, por meu lado, estranhei que ele achasse a sua renda cara, uma vez que ganhava três vezes mais do que eu, facto que me abstive de comentar, por pudor. Pedro teria por essa altura a idade que eu tenho agora, ou seja, 37 anos.
Tão pouco compreendi, pelo menos nesse momento, por que razão os meus amigos cordobeses se recusavam, alegando questões de princípio, a visitar a Expo'92, em Sevilha, porquanto esse evento tinha custado ao seu país dinheiro muito necessário, em seu entender, a outros sectores da vida pública, não constituindo por si só, afirmavam, um factor promotor de desenvolvimento.
Bom, hoje encontro certas semelhanças entre o que então diziam e aquilo que eu própria sinto e penso relativamente a questões como a construção dos estádios para o Europeu, etc., etc., etc..
Para terminar: não, não fui viver para Cordoba, mas fui aprender a dançar Sevilhanas e tenho tentado saber mais sobre quem foi a minha bisavó paterna, nascida na tão bela Andaluzia!

Quarta-feira, Maio 31, 2006

um dia já fui menina

conversas à volta do umbigo

Quando não há tempestades lá fora temos a oportunidade única de aprender a lidar com a nossa própria tempestade.
E porque é que eu acho que não estás nada contente com isso?
Bom, aqui não há democracia - e por isso tu não achas absolutamente nada, ou aliás, até podes achar, mas não me interessa. Além disso, quem é que te chamou?
Hoje estás um bocado agressiva, não achas?
...
Procuramos e nunca o encontramos, dentro ou fora de nós.
Procuramos o quê?
O sentido das coisas, da nossa existência, se quiseres.
E porque o procuramos?
Porquê não sei - só sei que o procuramos, ou que a maioria de nós o procura; suponho que deve ser o preço da condição humana.
Preço? Porque dizes preço?
Porque andamos, andamos, e nunca lá chegamos. Às vezes estou cansada... apetecia-me parar.
Para, então.
Não consigo, é mais forte que eu.
És uma tipa estranha, algo obsessiva.
Sabes, um dia sonhei que o mundo era um armário gigante, cheio de gavetas; desde então que tenho tentado arrumá-lo.
E?
Nunca está arrumado.

Segunda-feira, Maio 29, 2006

Segredos



Em Mosanto há um sítio, bonito, cheio de árvores, onde se pode passar uma tarde muito agradável com os putos.



Chama-se Parque da Pedra.


Assim foi...

Sábado, Maio 27, 2006

Indecisão


Partindo do pressuposto de que as nossas escolhas nem sempre são entre o que gostamos e o que não gostamos, mas também entre o que não gostamos e o que não gostamos e entre o que gostamos e o que gostamos e sabendo que eu adoro maçãs, impõe-se a questão: qual é que eu como?
Mas será que nas nossas escolhas estamos condicionados apenas por estas três possibilidades?
E se, mesmo gostando de maçãs, eu optasse por não comer nenhuma?
O que me teria movido então?

Quinta-feira, Maio 25, 2006

De Amar # 5

este livro. passa um dedo pela página, sente o papel
como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.

este livro tem palavras. esquece as palavras por
momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.

sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre
a tua. damos as mãos quando seguras este livro.

não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.
eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.

pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre
o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.

José Luis Peixoto in A Casa, a Escuridão

Domingo, Maio 21, 2006

Contexto

Tens a certeza?

Não.

Então, não podes realmente afirmar.

Não.

Mas...

Mas tenho um felling que é assim...

E isso parece-te suficiente para fazeres um juízo de valor?

Percebo o que queres dizer; às vezes pergunto-me se não posso estar a ser injusta ou precipitada ou as duas coisas. Repara, no entanto, ...

Reparo em quê?

Achas que posso ir contra aquilo que sinto?

Hum... suponho que não.

Vês, não há volta a dar.



Quinta-feira, Maio 18, 2006

...

Tom A. J. Carlson
Por vezes sou capaz de pouco mais do que caminhar nessa floresta.
Aliás, nem sempre sei, sequer, o que é uma floresta.

Segunda-feira, Maio 15, 2006

Silêncio

silêncio.
só no silêncio te digo o quanto os teus braços me fazem falta.
ou a tua boca, promessa de rosas, cravos, jasmins, sempre adiada.
silêncio.
sonho à noite acordada com uma cama no céu, ou teu cheiro, amargo, doce, meu.
silêncio.
um ventre rasgado, em fogo, as mãos apertadas, um orgasmo por cumprir.
silêncio.

Domingo, Maio 14, 2006

Estrela da Sorte

Estás muito bem, preocupada com as miudezas da vida, que te parecem coisas muito importantes, e, de repente, zás!
Afinal estás doente, afinal o resto já não interessa para nada, passas cinco dias sem dormir por causa das dores, pensas que já não aguentas muito mais, que se calhar era melhor morreres, imaginas que percebeste finalmente o horror do que é ser um doente terminal e não poder decidir que não se quer continuar, tomas toneladas de analgésicos, alucinas, lembras-te que tens uma filha, mas já achas que tudo pode continuar sem ti, vais ao médico, vais ao hospital, fazes análises, ecos, tacs e mais uma data de merdas, voltas para casa, continuas com dores, tomas mais uma data de trampas, choras, espreneias, pensas em Deus, desejas que tudo pare e, tens o que se chama popularmente uma estrelinha da sorte.
De repente, estás à hora certa, no sítio certo, com o médico certo. Afinal, tens a sorte de conheceres algumas pessoas e de teres algum dinheiro - o suficiente, pelo menos, para pagares a operação.
Dizem-te que tens um rim em perigo, que parou ou está em risco de parar, porque uma pedra te obstruiu a uretra, qualquer coisa com um nome esquisito. Tentas manter-te calma, sorries até para o médico, que te diz que vais ser operada de urgência. E é aí que percebes, pela primeira vez, que não tens, nem nunca tiveste, o controle da tua vida. A partir daí o tempo sucede-se lento ou rápido, não sabes, nada depende já de ti.
Correu tudo bem, estás safa, sabes depois.
E é aí que te invade esta angústia, angústia de saberes que vales tão pouco, apesar de mais do que todos aqueles que não são bafejados com a estrela da sorte, e não sabes se hás-de rir ou de chorar e desejas nunca mais esquecer esta experiência que te trouxe a lucidez de saberes qual é o teu lugar no mundo - e desejas esquecer já, depressa, tudo isto, para nunca mais te lembrares de qual é o teu lugar no mundo.

Domingo, Maio 07, 2006

Paradigmas # 1

Dr. Jekyll and Mr. Hyde



Quarta-feira, Maio 03, 2006

...

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stardust

Na impossibilidade de sermos (ainda) (apenas) um, teremos que ser (pelo menos) dois.

Terça-feira, Maio 02, 2006

jctp

Sábado, Abril 29, 2006

Where is the line with you?

Quinta-feira, Abril 27, 2006

Esta coisa das memórias

Esta coisa de andar a mexer em gavetas traz-nos às mãos memórias antigas.

Hoje, por aqui, revivalista, a ouvir The Final Cut.

Podia dar-me para pior.

...

Estou estafada e dõem-me as costas.

...

Ócio, advogo o ócio!

...

Ainda não arrumei um único livro!

...

Vou dormir - já que não digo nada de jeito. Vocês agradecem e eu também.

Segunda-feira, Abril 24, 2006

Sítios de A-MAR

Há sítios que eu visito que são sítios de a-mar.

Aqui fica o link para um deles.



Domingo, Abril 23, 2006

Já sonho com caixotes!

perdi. a. minha. fé. nas. pessoas. o. que. é. grave. sei. porém. que. depressa. a. recuperarei. é. que. eu. sou. mesmo. assim. nem. conseguiria. viver. de. outro. modo. a. responsabilidade. de. qualquer. maneira. é. minha. só. minha. tenho. a. mania. de. imaginar. que. tenho. uma. alma. e. que. os. outros. também. têm. pior. tenho. a. mania. de. imaginar. que. posso. tocar. a. alma. dos. outros. grande. parva. a. tolerância. é. uma. prática. em. desuso. por. exemplo. uma. pessoa. zanga-se. com. outra. e. nem. lhe. diz. a. outra. pessoa. como. não. sabe. estranha. o. comportamento. pronto. começam. os. mal-entendidos. tudo. estragado. na. maioria. das. vezes. as. pessoas. zangam-se. é. consigo. próprias. o. outro. que. nem. sabia. não. cumpriu. uma. qualquer. espectativa. porque. é. que. é. tão. difícil. comunicar?

Sábado, Abril 22, 2006

A mudança



é agora. pum. 37 anos. pum. a casa precisa de obras. pum. os canos. catrapás. grande merda. caixotes e mais caixotes. ai. os livros. ainda não encaixotei os livros. detesto encaixotar livros. e se depois preciso de algum? loiça, montes de loiça. mas por que raio gosto eu de ter tantos pratos, copos, taças, travessas e... nem digo mais. vou passar a convidar os amigos para comerem em pratos de plástico. mentira. sorte que não faço colecção de bibelots nem de outras porcarias. e os brinquedos da M.? e não tem muitos. socorro! destesto mudanças. vou deitar montes de coisas fora. pronto. estou, diga? os azulejos estão esgotados? compro outros, esqueça, sim, mande-me uns quaisquer. sim, não me importo. e limpar. limpar isto tudo depois. ahhhhhhhhhh!

Quinta-feira, Abril 20, 2006

Cartas # 4

Querida Irmã,

Como não dizer que vou morrer de saudades?

Mentiria.

E embora acredite, como tu também acreditas, que dentro de nós estaremos sempre juntas, fica sempre o fantasma da distância.

Sei que não devia dizer isto, porque me vais ler - e talvez fiques triste.

Sorri. Faz de conta que te estou a dizer que te amo, que é isso mesmo que estou a dizer.

Faz uma boa viagem.

Abraço, sem tamanho.

Rita

Segunda-feira, Abril 17, 2006

Quotidiano

Hoje acordei assim, cheia de sono - e sem vontade de ir trabalhar.

A M. não tinha escola e eu queria ter estado com disposição e tempo para a abraçar o dia inteiro.

Quando nos rimos o universo parece parar.

Às vezes rogo pragas à minha vida e também às minhas neuras - que me impedem de usufruir das coisas realmente importantes.

Nem sempre sei viver neste tempo, assim, tão rápido.

Estou chateada com o quotidiano.

Sábado, Abril 15, 2006

O teu destino

domingo. telefonas. é cedo.

insistes para que nos encontremos no bar do costume.

não sei porque digo que sim.

chego tarde. digo olá. peço um café.

esperas. fumo um cigarro.

estou pronta, digo-te.

e é então que começas novamente a contar-me o teu destino.

Quinta-feira, Abril 13, 2006

Dói-me o estômago


Quando ele chegou eu fingi que não tinha estado a chorar.

E achas que ele não reparou?

É claro que reparou, mas também fingiu - fingiu não ver.

Então, tudo bem, não é? Não era isso que tu querias?

...

Já reparaste que toda a gente procura o mesmo?

Achas?

Acho.

Como por exemplo?

Amor. Felicidade. Deus.

Espera aí, isso não é o mesmo!

Achas?

Terça-feira, Abril 11, 2006

diário (im)pessoal

a caminho de encontrar o eu
- como se isso fosse possível...

Meteu-se-me na cabeça, não sei bem quando, mas sei porquê, que era melhor tocar do que ser tocada.
Não sei se fiz disso uma máxima de vida, conscientemente não gosto de máximas, ou dito de outro modo, de caminhos traçados à partida.
Adiante.
Por pura insegurança, insegurança, repito, acreditei que se fosse eu a tocar no outro nada de mal me poderia acontecer, como é certo já ter sido horrivelmente magoada nesta vida.
Por quanto tempo agi assim, ignoro. Ignoro inclusivamente se agi assim de facto ou se apenas penso que agi assim.
Daqui já se percebe que o grau de conhecimento que tenho sobre mim própria não é elevado.
Ora acontece que, neste meu percurso, tive a sorte de me cruzar com algumas pessoas que vieram mexer, baralhar mesmo, esta minha visão da vida.
Descobri então que tocar e não ser tocada nem por isso me protegia mais, pois que cada vez que tocava era também tocada.
Mais tarde descobri que podia até sentir prazer em ser tocada, que gostava de ser tocada.
Quando o universo se estilhaça, nem que seja para nascer outro universo, acontecem-nos coisas estranhas.
Assim foi também comigo.
Reorganizar a nossa visão do mundo, dito de outra forma, a nossa forma de estar e ser, não é fácil, não é nada fácil.
Por exemplo, não é por sairmos para a rua aos gritos a apregoar que somos diferentes que os outros nos vêem de forma diferente.
Mais, e isso é o pior, sabemos lá nós como é que os outros nos viam antes...
Bom, e será que isso é realmente importante?
Porque é que eu acho que estou a andar em círculos?
Adiante.
Há muitas formas de gritar, mais do que as que podemos imaginar.
De repente dou comigo aos berros, sem saber bem se queria mesmo berrar (mas se berrei, deve ser porque queria) só para dizer a mim mesma que agora já era outra,
ou então,
de repente dou comigo aos berros e é nesse momento, precisamente nesse momento, que descubro que já sou outra - e não sei o que fazer com este meu outro eu,
ou então,
as duas hipóteses passam-se em simultâneo, o que até me parece ser o mais provável, embora continue sem saber o que concluir disto tudo, se é que há alguma coisa para concluir.
Bom, na realidade, acho que penso demais - o que não me leva lado nenhum, pois que há tantos caminhos possíveis.
Ando a ler Os Melhores Contos Zen, da Editorial Teorema, e roubei do livro esta frase, só para terminar:
Nada deve ser obstáculo à experiência pessoal.

Domingo, Abril 09, 2006

Vou ali e já volto

Vou ali e já volto. Preciso de pensar.

Pensar em quê?

Preciso de pensar porque é que este blog deixou se ser meu.

Deixou de ser teu? Como assim?

Assim mesmo, deixou de ser meu.

Não entendo.

Nem eu.

Mas não és tu que publicas os textos?

Sim, sou eu.

Então como é que o blog deixou de ser teu?

Acreditas em fantasmas?

Eu não, e tu?

Eu também não; infelizmente os factos parecem contradizê-lo.

Tretas!

Não, não estás a perceber! Fui possuída pelo meu próprio fantasma.

Ah, agora percebo... isso é lixado!

Pois é.

Sábado, Abril 08, 2006

...


Simplesmente eu.

Quinta-feira, Abril 06, 2006

...


Hoje cheguei a casa e não tirei a máscara, estava demasiado colada à cara.

Quarta-feira, Abril 05, 2006

(in)confidências

Tenho geralmente muita dificuldade em me zangar a sério com as pessoas.
Tenho tendência a vê-las como um todo, com as suas razões e não razões, passado, presente e futuro, se aos sonhos se pode chamar futuro.
E deve ser por isso que nunca dei um murro na mesa. E mesmo que o fizesse, quem me conhece bem, suponho, não iria acreditar em mim. Eu própria não ia acreditar em mim.
E se me magoam, se me magoam fundo, posso até discutir e esbracejar, mas remeto-me, frequentemente, ao silêncio.
Ando a tentar contrariar esta minha tendência, ainda não sei bem porquê.
Talvez que, agindo diferente, a realidade possa também ser diferente.
Talvez... se eu não cair na tentação de repetir o gesto tantas vezes consumado.

Terça-feira, Abril 04, 2006

Only you

Segunda-feira, Abril 03, 2006

Humming

Sábado, Abril 01, 2006

Ver.Rever.Sentir # 1


Fallen Angels (Duo luo tian shi)
Wong Kar-Wai é, para mim, um realizador de eleição.
Amo intensamente tudo o que já fez para cinema.
Vejo-me e revejo-me, sempre, em tudo aquilo que nos conta.
Uma destas noites estive a reviver o seu Duo luo tian shi.
Absolutamente tocante e actual. Absolutamente triste, muito triste.
Belo. Muito belo.
Aqui fica um texto de Ricardo Ribeiro que retrata muito bem a essência deste filme:
O filme dirá muito mais a quem, como eu, é ou foi um bicho urbano; é provável que esse espectador nunca tenha estado em Hong-Kong, mas reconhecerá os traços comuns a todas as grandes cidades: a solidão, a multidão sem uma face que cruza os caminhos percorridos pelo personagem, sem um sorriso, sem um sinal de reconhecimento mútuo, enfim, sem um comportamento que num ambiente natural marcaria o ser humano como o animal social que é. E é no reconhecimento deste meio que o espectador se identifica facilmente com a alma criativa de Wong Kar-Wai. A tristeza provocada por um envolvimento tão cheio de pessoas e paradoxalmente repleto de carências de ordem afectiva reflecte uma patologia social que não é nova. O estilo narrativo, a fazer lembrar os policiais de Mickey Spilane, é outro traço característico destes contos urbanos, que contribui para a excelência do resultado final. Um dia, ficticiamente, Fallen Angels será utilizado como fonte historiográfica, e algures no mundo um professor iniciará a aula com a seguinte frase: “E hoje, vamos abordar um documento que retrata a vida em sociedade nas grandes colónias estabelecidas pelo homo sapiens entre os séculos XIX e (....)”.


Quinta-feira, Março 30, 2006

De Amar # 4

Podias fingir que me amas e que não podes viver sem mim?

Podias fingir que só por mim respiras, apenas só por mim?

Podias?

Serias actor, o meu actor.

Era eu quem escrevia os textos, tu apenas representavas.

E quando te fartasses, trocávamos os papéis.

E eu seria então a tua Mary Ann.

Quarta-feira, Março 29, 2006

Infinito # 2

A M. já mexe bastante bem no computador.

É fantástico o montão de coisas que ela descobre sozinha!

Ontem, fez este desenho.

A M. não sabe, ou talvez sim, que é a minha estrela.


Terça-feira, Março 28, 2006

Experiência # 7

Auto-Retrato
(para o jctp)

De Amar # 3

dispo-me para ti, para ti, só para ti.

formula um desejo, diz.

agarro com as mãos, loucas, as tuas palavras.

sei agora que não posso viver sem ti.

diz.

não, as ruas assim, tão sós, e eu tão só de ti.

volto atrás, corro, mas o tempo é meu inimigo.

formula um desejo, diz.

dispo-me, dispo-me só para ti.

quero outra vez aquele vale encantado.

as tuas palavras riachos.

os teus-meus segredos.

diz. diz outra vez. diz.

o teu nome. o meu nome.

n-o-m-e. o nosso nome. diz.

era uma vez...

é cedo. é muito cedo. é demasiado cedo.

n-o-m-e.

pedra. espelho. casa. mar. ouriço. verde. amor. búzio. floresta. nuvem. vento. chama. beijo. espuma. livro. pássaro. riso. caminho. lilás. poço. bruma. cheiro. mão. doce. montanha. azul. história. porta. amarelo. música. barco. areia. branco. bolo. rádio. carmim.

n-o-m-e.

através de ti. através de mim.

palavras.

já não vivo sem as tuas palavras.

Segunda-feira, Março 27, 2006

Similitudes

Magritte


Lewis Carroll

Domingo, Março 26, 2006

Renascer


está sol. a hora mudou. apetece-me renascer.

Sábado, Março 25, 2006

...

A quem me conheceu saiba que essa outra já não existe.

Experiência # 6

A realidade não existe # 2

A importância da cadeira

Numa missão urgente e quase impossível (urgente para quem?) eu e mais alguns colegas estamos fechados, há mais de um mês, numa sala, rodeados de papéis, num trabalho estupidamente rotineiro, a inserir uns milhares de dados numa suposta base de dados.
As condições, para tarefa tão importante, não são as melhores: computadores da era da pedra, mesas e cadeiras ergonomicamente contestáveis, péssima luz.
Resta-nos o calor humano, quando há, já que também estamos todos ao monte.
Cenário deprimente, como já perceberam...
E eis-me no meio disto tudo a fazer uma descoberta supreendente: a da importância da cadeira!
Que o digam as minhas costas que, após uma ida às urgências, uma visita ao fisiatra, e mais umas quantas injecções, continuam a gritar alto e só hoje me permitiram voltar a sentar-me aqui - embora já se estejam a queixar.
Nunca se esqueçam da importância de uma cadeira, que é como quem diz, da importância de reclamar condições mínimas de trabalho, que foi o que eu, estranhamente, não fiz.
Estranhamente, disseste estranhamente?
Às vezes esquecemos o que é realmente importante, embora pensemos que não...


CHARLOTTE PERRIAND
Charlotte Perriand on the B306 Chaise Longue, 1928 Design: Charlotte Perriand, Le Corbusier, Edouard Jeanneret

Segunda-feira, Março 20, 2006

Experiência # 5

A realidade não existe

vkpkpkkpfkpk+fkx+kk´+k+n,+,+b,,

Pronto, tá visto que não gostei da tua carta de amor.

Não queres reescrevê-la?

(isto é lá coisa que se peça!)

(agora dei em escrever calão?????)

Domingo, Março 19, 2006

Experiência # 4

Nocturno

Quinta-feira, Março 16, 2006

I'm a super-star-fish!

Quarta-feira, Março 15, 2006

Generation Gap

Pois, de facto, não é assim que as coisas se resolvem.

Deve ser a tal generation gap de que falavas...

Esperei por ti, esperei demasiado...

e por isso matei-te. e enterrei-te.

já não existes. quero que saibas que já não existes.

há um tempo para o silêncio. disse-te-o.

pareceste não compreender.

nunca conseguiste ser eu. nem sequer estiveste próximo.

na tua petulância fui o que não sou.

amar nunca fez parte do teu léxico. apenas fez parte do meu.

e foste um covarde. nunca conseguiste dizer adeus.

és um crápula. e por isso morreste.

falo de ti. sim, falo de ti. continua a pentear a barba.

nunca mais vais ser bonito.

adeus.

Terça-feira, Março 14, 2006

Esperei por ti, esperei demasiado...

Segunda-feira, Março 13, 2006

Cartas # 3

Querida Filha,
A casa está silenciosa, demasiado silenciosa, e a mãe parece uma barata tonta, sem saber o que fazer.
São nove horas da noite e já arrumei a cozinha. Fui rápida hoje, não fui?
Desejo que estejas contente e que estes dias com os teus amiguinhos da escola te deixem memórias supreendentemente belas e quentes.
É tão bom saber que já sabes voar!
Tenho saudades.
1000 beijos, enormes, e muitos abracinhos.
Dorme bem.
Até amanhã.
A tua Mãe ,
Bolha

Domingo, Março 12, 2006

Infinito # 1

Como se expressa um sentimento infinito?

Infinito. O meu amor pela minha filha é infinito.

Não há expressão. Sente-se, tão só.

Boa viagem, filha!

(vou ficar a ouvir uma das tuas músicas preferidas!)



Quando a M. tinha 3 anos. Agora tem 6.

Sábado, Março 11, 2006

Do Dicionário # 2

Medo

do Lat. metu
s. m.,
terror;
receio;
susto.
loc. adv.,
a -: com receio.


Palavras. Poucas, tão poucas, para definir um sentimento tão avassalador.

...


Pânico

Corria louca, rua abaixo, pés e mão atados ao coração, que batia descompassado.

Pensava, se pensava, mais depressa.

O rosto pálido, a alma gelada, Deus a subir-lhe à cabeça.

Fugir, queria fugir, mas as luzes batiam-lhe na cara, as pessoas batiam-lhe na cara.

Respirar, preciso de respirar.

Lágrimas, suor, os sons a gritarem, o filme a rodar ao contrário e tudo a subir-lhe à cabeça.

É agora, é agora.

Náusea, vómitos, o corpo a fraquejar.

Pára tudo, por favor, pára tudo!

O chão a enrolar-se, o medo atroz... e Deus a subir-lhe à cabeça.

[publicado no im(possibilidades) em 4.5.2005]

Sexta-feira, Março 10, 2006

meu nome é pedra e pedra é meu corpo...

paz

Experiência # 3

Quinta-feira, Março 09, 2006

pós-modernidade

Ahhhhh!

Quarta-feira, Março 08, 2006

pos what?????


X-Ray-Manhattan
Eric Drooker

Terça-feira, Março 07, 2006

Da Infância # 2

AQUELA NUVEM

- É tão bom ser nuvem,
ter um corpo leve,
e passar, passar.

- Leva-me contigo.
Quero ver Granada.
Quero ver o mar.

- Granada é longe,
o mar é distante,
não podes voar.

- Para que te serve
ser nuvem, se não
me podes levar?

- Serve para te ver.
E passar, passar.

Eugénio de Andrade in Aquela nuvem e outras

(história a pedido de um amigo)

Segunda-feira, Março 06, 2006

Experiência # 2

Na blogosfera
(ao jctp)

Experiência # 1

Por entre as flores
(ao Jorge)

Sábado, Março 04, 2006

Da Infância # 1



os poetas - entre nós e as palavras
Herberto Helder [MINHA CABEÇA ESTREMECE]

Sexta-feira, Março 03, 2006

De Amar # 2

invento um tempo, só nosso,
lugar mágico,
as pedras soltas,
ao fundo um rio.

aqui, ali,
saltamos,
precário equilíbrio,
saltamos.

enche-nos o riso,
o verde,
o frio da manhã,
fingimos.

invento outro tempo,
sorries,
e parto à tua descoberta,
esqueço-me que já te encontrei.

o céu a voar,
os dedos gastos,
é cedo, é cedo,
fingo não perceber.

corro, corres,
as pernas bambas,
os corpos gastos,
é cedo,
invento um tempo,
onde o nosso amor não morre.

Quinta-feira, Março 02, 2006

Recordações # 1

Ao meu Tio Raúl
Era já noite quando o anjo voou sobre os telhados das casas e foi poisar suavemente no peitoril da janela.
Lá dentro, na sala iluminada, estava quem vinha buscar.
Olhou-o como um gato olha para as coisas, à espera de um sinal....
...
- Tens medo da morte?- perguntou Alfredo.
- Não sei - respondeu ela -, depende.
- Depende?! Depende de quê?
- De quem seja a morte, meu parvo!
- Parva és tu! Fala mas é lá a sério.
...
Correu para dentro do estúdio e fechou a porta com força. Finalmente, pensou. E começou a despir o fato depressa, esquecendo-se de tirar as asas.
...
- Leva-me, leva-me contigo! - pediu. E fechou os olhos e fez força e julgou já ver o horizonte para lá das árvores.
...
A mãe trazia a criança ao colo, enrolada num cobertor. Quando chegou já era tarde, mas isso não pareceu perturbá-la. Sentou-se e, como sempre fazia, começou a cantar baixinho, na sua voz doce de anjo, como só as mães sabem fazer. A sua voz ecoou pela noite, lembrando a todos o sabor do colo quente, onde nada pode acontecer.
...
- Tens medo da morte? - perguntou Alfredo.
...
Corre Madalena, corre se queres chegar a horas!
...
Às vezes os anjos descansam. É nessas alturas que se costumam ouvir os lobos uivar.


[publicado no im(possibilidades) em 17.02.2005]

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006

Cartas # 2

Querido Amigo Jorge,
Gostaria de te poder presentear com as palavras bonitas e amáveis que sempre tens, mas não tenho esse teu dom.
Infelizmente, também tenho a minha máquina fotográfica avariada.
Deixo-te, pois, com um campo de túlipas, imagem da qual desconheço a autoria, mas que julgo poder ser do teu agrado.
A teu lado sou sempre maior e melhor - a beleza e a generosidade de carácter são inatas em ti.
Um beijo grande e o meu muito obrigada.
Estrela do Mar

De Amar # 1

e se a tua boca fosse o cofre de todos os segredos, sussuravas,
e as minhas mãos pétalas roxas, oblíquas, transversais,
segredos,
e o teu cabelo um mar revolto, tempestade.

e se o meu corpo fosse aresta, recanto, enlevo,
e os teus braços velas prontas a desfraldar,
navegávamos.

e se o teu cheiro fosse agora o meu cheiro,
e os meus olhos os teus olhos,
lagos, fontes, sítios por descobrir,
com o desejo a gritar alto,
encontro, vertigem, amor.

sons e cores, só sons e cores,
e o tempo parado, agora desgovernado,
só sons e cores, só sons e cores.

respirar a um, soar a um,
boca, mãos, pernas e braços,
só sons e cores, só sons e cores.

Sábado, Fevereiro 25, 2006

...

Paulette Brodeur

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Do Mar # 2

Percorri mais uma vez a rua, se aquele fio de espaço se podia chamar rua, à procura do número 618.
Estava um calor de rachar, naquela tarde.
Os putos corriam por aqui e por ali e nada parecia incomodá-los.
A mim, tudo me incomodava.
O labirinto de ruas, as casas cinzentas, o chão de terra, o cheiro a lixo, a extrema pobreza.
Foi então que uma mulher, sentada num banco, junto a uma porta me perguntou: Senhora, não quer sentar um bocadinho?
Estranhei a pergunta e mais ainda o sim da minha resposta.
Ali ficámos, duas estranhas, lado a lado, no mais completo silêncio.
De vez em quando, para esconder a atrapalhação, olhava-a e sorria-lhe, ao que me respondia também com um sorriso.
E quando o tempo se tornou longo e o corpo pesado, balbuciei um: Bom, agora tenho que ir...
E foi então que a mulher me disse: Tenho cinco filhos, três vivos.
Envergonhada, por não respeitar tamanha hospitalidade, voltei a sentar-me.
Tenho cinco filhos, três vivos - repetiu. Dois levou-me-os o Mar.
A princípio pensei que fossem pescadores mas, conforme a mulher falava, percebi o quanto o meu querido e amado Mar podia ser também a mais terrível e intransponível muralha.
Devemos enterrar os nossos mortos - continuou. Mas ela não tinha enterrado os seus, pois que era longe, longe, que tinham morrido.
...
Nunca mais esqueci aquela tarde. Recordo tudo, principalmente o rosto que, apesar de velho e cansado, não parecia triste - apenas resignado.
...
Ainda hoje me pergunto o que foi que, na realidade, vi: se sabedoria de vida, se pobreza, se ambas.

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Sons do Mar # 1

Glass Painting
Althea Braithwaite

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

Cartas # 1

Querida Amiga Estrela do Mar,


Há já muito que te devia esta carta, sei-o. Mas, como deves calcular, tenho andado muito ocupada com todas as mudanças que acarreta esta minha nova vida.
Nova vida... Poderá dizer-se "nova vida"?
Casa nova, outros amigos, outras rotinas... Será isto uma nova vida?
Já sei, estás a sorrir, e se eu estivesse ao pé de ti dirias "tu e a metafísica..."
Pois, nisso, como em muitas outras coisas, não mudei - acompanham-me as minhas eternas questões.
Adiante...
O mar aqui amanhece mais verde e os peixes tem cores fantásticas, laranjas, azuis celestes, amarelos, laranjas - é um espectáculo lindo de se ver. E até a minha barbatana parece mais brilhante, vê tu!
Muitas vezes desejo que o Verão chegue aí depressa, talvez nessa altura me possas vir visitar.
E vivo assim, entre a supresa e o prazer da coisas novas e a herança que carrego comigo, de que tu és a melhor parte. E se a angústia me chega, inesperada, ou demasiado esperada, procuro uma nova rocha, uma nova praia, um novo abrigo, e entretenho-me a fazer planos para o transformar na minha nova casa.
É bom ter locais ainda não nossos conhecidos... podemos realmente imaginar que estamos a construir uma nova vida...
Quero-te muito e espero encontrar-te bem.
Também prometo escrever mais.
Cantos preciosos.
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A tua Amiga,
Sereia Azul

Domingo, Fevereiro 19, 2006

Do Mar # 1

O Faroleiro do Sardão

Não confio nos homens, ainda menos em Deus.
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Talvez seja por isso que nunca durmo. Mantenho-me acordado durante a noite e caio dentro de uma espécie de limbo sonolento. Ouço e vejo tudo o que se atravessa no feixe luminoso do farol.
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Repito: não confio nos homens. Confio na sabedoria remota das minhas mãos. E, mesmo que cegassse, elas continuariam sempre a pôr em movimento a engrenagem das luzes.
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Metade da minha vida foi passada aqui, entre a noite e os espelhos reflectores. Já não me lembro em que idade comecei. O oceano é tão escuro quanto a minha infância.
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Diariamente subo ao cimo do farol que se ergue no alto das falésias, ao anoitecer. Isolo-me do mundo; e, neste isolamento, amaldiçoo por vezes a vida - enquanto a luz se acende, adquire intensidade, e varre a fúria do oceano.
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De vez em quando, vêm pássaros embater contra as vidraças a ferver do farol. Cegam com a luz, morrem queimados. E os navios continuam as suas rotas, avisto-os, e parecem um brinquedo a flutuar. Somem-se na escura tormenta.
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Em toda a costa sou o único homem acordado, sem amigos e sem família. Zelo pela vida daqueles que navegam noite dentro. O jacto luminoso do farol é o sinal de quem os acompanha e pensa neles.
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Consigo ver no escuro, até onde nenhum homem consegue ver; mas não acredito em Deus.
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Enquanto amanhece escrevo o relatório diário, e nele anoto, também, o que a imaginação me revelou. Um dia, ninguém saberá onde começa e acaba a verdade. Entre a hora de acender e apagar o farol, anotei: passagem de golfinhos e de sereias, de navios fantasma, de embarcações que mal tocam nas vagas, astros que pousaram sobre o dorso de uma baleia, alcatrazes que se incendeiam, de repente, em pleno voo.
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Sou muito velho, quase tanto como o farol. Vi muitas coisas, posso contar todas as histórias que me vieram à cabeça.
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E não abandonarei, nunca, o meu posto. Continuarei aqui, rodeado pela escuridão do mundo, atento ao que nasce, inesperadamentes, debaixo da luz. Repito os gestos os meus antepassados, e é nessa perenidade de gestos repetidos, exactos, que se prolonga a solidez do farol.
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Quando a tempestade o sacode desde os alicerces, e o mar ressoa escadas acima como se o fosse engolir de um momento para o outro - fico tranquilo: porque sei que depois da minha morte, à hora certa de o acender, dentro de mil anos, tudo será executado minuciosamente, como acabo de o fazer.
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Al Berto in O Anjo Mudo

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

Do Dicionário # 1

Amar
do Lat. amare
v. tr.,
ter amor a;
gostar muito de;
desejar;
escolher;
apreciar;
preferir;

v. int.,
estar apaixonado.
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O sentimento reduzido à palavra..
A linguagem verbal como reduto último da comunicação humana.
O Ser preso dentro do Homem.
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Digo: Amo-te! É claro que também poderia dizer que gosto muito de ti ou que te desejo. Não, esquece, digo antes que te aprecio ou que te prefiro ou até que te escolho. Percebes? Percebes o que eu quero dizer? Não? Amar e desejar não são a mesma coisa? Ok, vou tentar outra vez: há dias em que quero fugir contigo e dias em que quero fugir de ti. Às vezes olho-te e não vejo mais nada, outras olho-te e não vejo nada. Hoje morria por ti, amanhã talvez não. Percebes agora? Não? E se te beijasse? Achas que percebias melhor? Percebias...

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

Estrela do Mar


Representante da classe Stelleroidea (do latim stella, estrela + do grego eidos, forma).

A superfície corporal pode apresentar-se lisa ou granulada, ou ainda com espinhos bem visíveis.

A maioria das estrelas-do-mar mede de 12 a 14 cm de diâmetro e muitas apresentam cores intensas como vermelho, azul ou laranja.

A boca localiza-se no centro da superfície oral, que está direcionada para baixo, os sulcos ambulacrais radiais, que vão da boca à extremidade dos braços, contém o canal alimentar, responsável pela nutrição da estrela-do-mar.

O sistema nervoso pode ser considerado como primitivo, estando intimamente associado à camada mais externa (epiderme). Um anel nervoso está presente ao redor da boca e um nervo radial estende-se para cada braço – estes estão associados aos neurônios localizados na epiderme.

A boca abre-se num grande estômago cardíaco de paredes espessas, que ocupa a maior parte do disco central. Daí é feita a nutrição a todas as partes da estrela-do-mar.

Como a maioria dos equinodermas , as estrelas-do-mar possuem sexos separados – os ovos são lançados diretamente no mar, onde ocorre a fecundação formando então uma larva – no desenvolvimento dessa larva temos a formação de um indivíduo adulto.

Os equinodermas são animais exclusivamente marinhos.

A capacidade de regeneração das estrelas-do-mar é bem conhecida: qualquer fragmento do corpo que contenha uma porção de disco central é capaz de regenerar-se, podendo esse processo levar até um ano.


Fonte: http://www.animalnet.com.br/